Nome falso, ameaças e isolamento: como golpista manteve mulher em cárcere privado por 3 meses.


Em três meses uma mulher de 39 anos se afastou da família, trocou de telefone, registrou boletins de ocorrência contra a própria mãe, o pai, o irmão, o ex-marido e o ex-cunhado e perdeu pelo mens R$ 30 mil. Segundo ela, tudo começou enquanto vivia sob o controle de um homem que conheceu pelo Tinder, em Campo Grande.

O suspeito conforme o relato da vítima, alimentava a ideia de que ela e os filhos corriam perigo. Dizia que o ex-marido havia contratado criminosos para matá-los, mostrava supostas conversas familiares contra ela e, ao mesmo tempo se apresentava como a única pessoa capaz de protegê-los.

Até o nome usado por ele era falso. Para a mulher ele era Wellington Viera da Silva de 29 anos. Segundo a polícia trata-se de Helinton Vargas Portela de 31 anos.

A mentira começou a cair justamente quando a vítima foi à Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) para registrar mais uma denúncia contra familiares. Lá descobriu a verdadeira identidade do homem com quem vivia havia 3 meses.

Helinton foi preso na sexta-feira (11) e teve a prisão preventiva mantida pela Justiça no domingo (13). O G1 tentou contato com a Delegacia Pública responsável pela defesa do suspeito, mas não conseguiu retorno até a última atualização desta reportagem. 

Do 'mar de rosas' ao medo

Os dois se conheceram em maio no Tinder. Segundo a mulher, o primeiro mês foi um "mar de rosas". Ele era carinhoso com ela e com os filhos e pouco tempo depois, passou a morar com a família.

Depois o comportamento mudou. O namorado começou a dizer que ela e os filhos estavam sendo ameaçados. Afirmava que o ex-marido havia contratado uns criminosos para matá-los e chegou a dizer que poderiam colocar fogo na casa.

Ao mesmo tempo em que alimentava o medo, apresentava-se como a única pessoa capaz de protegê-los. "Só ele que podia sair com vida dali. Então ele tinha que ficar com nós."

A mulher nota que trocou de número e de aparelho celular deixou de sair literalmente e passou a ser monitorada.

Segundo o boletim de ocorrência o suspeito também mostrava supostas conversas da mãe e do ex-marido com ataques contra ela. A polícia registrou que as imagens podem ter sido criadas com a inteligência artificial.

BOs contra mãe, pai, irmão e ex-marido

Aos poucos a mulher se manteve justamente das pessoas que poderiam ajudá-la. A mãe chegou a desconfiar da identidade do namorado e tentou descobrir quem ele realmente era. Àquela altura, porém já não conseguia falar com a filha.

A vítima afirma que por determinação do suspeito, registrou os boletins de ocorrência contra a mãe, o pai, o irmão, o ex-marido e o ex-cunhado. Dentro de casa segundo ela, o controle chegou às decisões mais básicas. 

Um dos filhos tem deficiência física e mental precisa de cuidados. A mulher conta que o namorado restringiu a participação dela nessa rotina e outro filho de 15 ano, passou a assumir parte das favelas.

Ela diz que precisava avisar até quando queria ir ao banheiro ou levantar durante a madrugada para cuidado filho. "Tudo eu tinha que pergunta. Tudo eu tinha que falar para ele."

A mulher relata ainda ter sido agredida três vezes e obrigada a manter relações sexuais pelo menos quatro vezes por dia.

No boletim de ocorrência ao qual g1 teve acesso, o caso foi registrado como sequestro e cárcere privado, falsa identidade, denunciação caluniosa, violência psicológica contra a mulher e estelionato.

Controle chegou ao dinheiro

A vítima também ter perdido pelo menos R$ 30 MIL durante os três meses. 

Ela recebia cerca de R$ 11 MIL mensais de pensão alimentícia. Conforme o boletim de ocorrência, o suspeito assumiu o controle do celular com os aplicativos bancários e passou a movimentar as contas e fazer saquês.

Para justificar a falta de dinheiro dizia que o ex-marido havia parado de pagar a pensão. Também afirmava ter valores retidos pela Receita Federal e prometia comprar uma casa para o casal quando o dinheiro fosse liberado.

Foi à delegacia denunciar a família e descobriu quem ele era

Na sexta-feira (11) a mulher foi à Deam para acusar o ex-marido e o irmão de terem apontado armas contra ela. Segundo o relato posterior da própria vítima  situação não aconteceu e a denúncia havia sido determinada pelo namorado.

A delegada percebeu as inconsistências na história. A polícia também tinha conhecimento de uma denúncia feita pelo Ligue 180 que apontava a própria mulher como vítima de Heliton.

O suspeito acompanhava o atendimento pelo telefone. Quando conseguiu conversar reservadamente com a delegada, a mullher deixou o aparelho do lado de fora.

Foi então que policiais mostraram fotos de Heliton preso anteriormente. Só naquele momento ela descobriu que o homem que conhecia como Wellington não era quem dizia ser.

A mulher contou que os boletins de ocorrência contra os familiares haviam sido registrados sob pressão e voltou na denúncia que acabara de fazer. 

Para ela, descobrir a verdadeira identidade do namorado também significou perceber que poderia sair daquela situação. "Na verdade, senti um alívio. [...] Eu já estava pedido para Deus me tirar dali."

Heliton estava a poucas quadras da delegacia em um carro e acompanhamento da filha de 8 anos da vítima, quando foi localizado pela polícia. A criança foi entregue à mãe.

Com ele, foram encontrados R$ 2.885 em espécie, dinheiro que segundo, pertencia a ela.

Quem era o homem que ela conhecia como Wellington 

Segundo informações repassadas pelo Tribunal de Justiça, Heliton aparece em processos criminais em Campo Grande, Ponta Porã - Nova Andradina e Maracaju. Há ainda cartas precatórias de Nova Londrina (PR) relacionadas e violência doméstica.

Em março deste ano, ele foi condenado a 6 anos e 4 meses de prisão por roubo com uso de faca em Maracaju. A decisão estava em fase de recurso.

Naquele caso, segundo o processo, outra vítima foi ameaçada e obrigada a acessar o banco, contratar um empréstimo e transferir R$ 25 Mil para Heliton.

Recomeço 

Depois da prisão a mulher voltou para casa. Agora tenta reconstruir a relação com a família da qual havia se afastado e retornar a rotina com os filhos.

Ela ainda sente medo, mas voltou a fazer coisas simples que durante os três meses diz não ter liberdade. 

Uma das primeiras foi dormir sozinha. "Foi a primeira coisa que fiquei alegre. De não ter ninguém ali, de levantar a hora que você quer, dormir na hora que você quer."

Quando perguntada pelo G1 sobre o que sente agora que o suspeito não está mais dentro de casa, respondeu sem hesitar: "De liberdade."


FONTE: G1 GLOBO.

RE-EDITADO: JÚLIA BAESA

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