Dia da África: Brasil fortalece a cooperação com o continente


Kuala Lumpur, 27/10/2025 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante encontro com o presidente da República da África do Sul, Cyril Ramaphosa. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante encontro com o presidente da República da África do Sul, Cyril Ramaphosa. – Ricardo Stuckert/PR

 

Esta segunda-feira (25) marca o Dia da África, continente com o qual o Brasil tem intensificado as relações no atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O movimento faz parte de um esforço para diversificar os parceiros comerciais, além de reforçar laços culturais, diplomáticos, científicos e históricos com os africanos.

Lula fez sete viagens à África na atual gestão, sendo duas à África do Sul, além de Angola, São Tomé e Príncipe, Egito, Etiópia e Moçambique. Nos últimos três anos, o Brasil tem firmado acordos com países africanos em áreas como agricultura, aviação civil, defesa, saúde, educação e turismo.

No mesmo período, Lula recebeu em Brasília seis chefes de Estado africanos, entre eles, o presidente Patrice Talon, do Benim, Bola Tinubu, da Nigéria, e João Lourenço, de Angola, resultando na assinatura de acordos e memorandos de entendimento.


Relações históricas

O Brasil foi o país que mais recebeu africanos escravizados, cerca de 4,8 milhões dos 12 milhões de seres humanos sequestrados do continente africano entre os séculos 16 e 19.

 

A ligação entre Brasil e Angola no período colonial era tão intensa que, quando Dom Pedro I declarou independência, a elite comercial que vivia em Luanda e Benguela passou a defender a anexação de Angola ao Brasil recém-independente.

Buscando estreitar as relações com Angola para além do petróleo e do agro, o Ministério da Cultura do Brasil assinou acordos com Angola, em abril deste ano, para integrar arquivos históricos sobre a escravidão nos dois países, além de promover maior cooperação na cultura e nas artes.

O secretário de África e Oriente Médio do Ministério das Relações Exteriores (MRE), embaixador Carlos Sérgio Sobral Duarte, declarou à Agência Brasil que o maior protecionismo dos países desenvolvidos, somado às afinidades histórico-culturais do Brasil com a África, contribuem para ampliar as parcerias com o continente.

“É um continente muito variado e com muitas oportunidades econômico-comerciais que o Brasil tem procurado aproveitar. No contexto atual de fechamento dos países desenvolvidos em geral, faz mais sentido buscar uma diversificação. Os países africanos são um mercado, em termos de população e potencial, realmente muito grande”, afirmou o embaixador.

O diplomata observou que a África mantém boas taxas de crescimento, com 1,5 bilhões de habitantes, sendo mais de 60% com menos de 25 anos.

Para marcar o Dia da África, o Itamaraty realiza um seminário sobre parceria entre os países. O presidente Lula participa do 1º Fórum de Reitores Brasil-África, organizado pelo Ministério da Educação (MEC).

Representante africano no Brasil

Na cerimônia do Dia da África no Itamaraty, o decano do corpo diplomático africano em Brasília, embaixador de Camarões, Martin Agbor Mbeng, agradeceu o voto do Brasil na ONU para reconhecer a escravidão de africanos como maior crime contra humanidade da História.

Para o diplomata camaronês, instituições brasileiras como Fiocruz, Embrapa, CNPq e o Instituto Brasil-África têm muito a contribuir com o continente africano.

“Essas instituições têm capacidade para construir programas com parceiros africanos, não para a África, mas com a África. Essa distinção é importante. Uma verdadeira parceria significa planejamento compartilhado, responsabilidade e prestação de contas compartilhadas”, acrescentou Mbeng.

Mbeng também elogiou a postura do Brasil de defender um sistema multilateral de comércio baseado em regras, em especial na Organização Mundial do Comércio (OMC), que tem enfrentado desafios devido à atuação dos Estados Unidos.

Relações comerciais

Apesar da relação histórica, a África representou apenas 5,70% do fluxo comercial do Brasil em 2025, totalizando US$ 23,7 bilhões de corrente comercial, com um superávit de US$ 7,2 bilhões a favor da balança brasileira.

Em comparação, a Europa responde por 31,95% do nosso comércio exterior, e a América do Sul representa 17,28% do comércio internacional brasileiro.

O secretário do Itamaraty para África, embaixador Carlos Sérgio Sobral Duarte, enfatizou que, nos últimos anos, o comércio com a África tem avançado, mas acredita que ainda pode crescer muito mais.

“Há um certo desconhecimento que também precisa ser superado, tanto em relação a oportunidades na África quanto aqui. Esses eventos complementam a atividade política, iniciando pelo presidente e pelos agentes políticos do governo”, concluiu o embaixador.

Desde 2020, primeiro ano da pandemia, o comércio do Brasil com a África cresceu 52%, embora tenha enfrentado uma queda de 2,3% em 2025 em comparação a 2024. Comparando com 2023, primeiro ano do governo Lula, o crescimento foi de 16%.

Panorama

A professora de relações internacionais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Elga Lessa de Almeida, destacou que o contexto atual é menos favorável para a integração Brasil-África em razão das condições econômicas.

“Nos primeiros governos Lula, a linha de financiamento para a internacionalização das empresas, especialmente no setor de infraestrutura, como Petrobras e Odebrecht, conseguia recursos para sua atuação nesses países. Isso já não se observa atualmente”, apontou.

O presidente Lula defende o retorno da atuação da Petrobras e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na África, com investimentos e parcerias, como mencionou durante a visita a Moçambique em novembro de 2025.

Para a professora Elga Lessa, os investimentos não são tão significativos como nos primeiros governos petistas. “Neste momento econômico, os aportes na cooperação para o desenvolvimento de grandes projetos no continente não são expressivos”, completou.

O pesquisador do Núcleo de Estudos Sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS), Eden Pereira Lopes da Silva, avaliou que entre 2017 e 2022, a política do Brasil para a África foi comprometida, tendo sido revertida apenas parcialmente pelo governo Lula.

“O governo Lula 3 conseguiu, com algum sucesso, retomar esses laços e esse diálogo com países no continente africano”, comentou o especialista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ciência e tecnologia

25/05/2026 - Cerimônia de abertura do Seminário Brasil-África 2026: Parcerias em movimento - novas frentes de ação. Foto: Maria Mesquita/MRE

Cerimônia de abertura do Seminário Brasil-África 2026: Parcerias em movimento – Maria Mesquita/MRE

O Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTI) anunciou, nesta segunda-feira, o relançamento do Programa de Cooperação Afro-Brasileira em Ciência e Tecnologia ProÁfrica, que desde 2011 não tinha editais lançados.

A iniciativa, liderada pelo CNPq, deverá investir R$ 25 milhões no fortalecimento da cooperação científica, tecnológica e de inovação entre o Brasil e os países africanos em áreas como meio ambiente, sustentabilidade, alimentação, agricultura, energia, recursos naturais, saúde e cultura.

A ministra Luciana Santos afirmou que o edital foi possível graças à decisão do presidente Lula de destinar recursos para a ciência, tecnologia e inovação.

“Queremos ser um instrumento concreto desse compromisso do nosso governo, aproximando as comunidades científicas, desenvolvendo tecnologias conjuntamente e criando soluções inovadoras que atendam aos desafios comuns que enfrentamos no Brasil e no continente africano”, afirmou Luciana durante o Seminário do Dia da África, no Itamaraty.

Em abril deste ano, o MCTI publicou outro edital com investimentos de R$ 50 milhões em capacitação para cerca de 2 mil técnicos, pesquisadores, estudantes e agricultores, promovendo soluções baseadas em ciência e tecnologia para aumentar a produtividade agrícola e garantir a segurança alimentar.

O pesquisador da UFRJ, Eden Pereira, ponderou que a agenda brasileira deve priorizar a cooperação no combate aos impactos da mudança climática na agricultura.

“O Brasil possui instituições como a Embrapa, que podem desenvolver soluções para elevar a capacidade agrícola em países africanos que enfrentam desafios produtivos”, comentou.

Fonte: Agência Brasil

Postagem Anterior Próxima Postagem
Jornal Bsb News