Depois de tornar público o vício em apostas e os jogos online o atacante Michel revelou detalhes do período de dependência e os desafios na recuperação do ludopatia - condição médica caracterizada pelo desejo incontrolável de apostar.
Aos 37 anos o jogador foi artilheiro do Campeonato Gaúcho em 2015 pelo Passo Fundo e em 2018 pelo São Luiz. No cenário nacional tem passagem em Curitiba em 2015 e pelo Guarani em 2013. Atualmente defende o Bagé que disputa a segunda divisão do Rio Grande do Sul.
Em entrevista com à RBS TV o atacante contou ter iniciado nas apostas esportivas, mas foi nos jogos online de cassino que entrou no que chamou de "vida de zumbi. Michel diz que está "limpo" há mais de 45 dias depois de nove anos de vício.
Segundo o jogador a primeira aposta foi feita em 2017 e em pouco mais de um ano ele já estava completamente viciado.
Devido a regulamentações desportivas - por lei atletas profissionais são proibidos de participar de qualquer tipo de aposta - e a uma situação pessoal decidiu interromper as apostas esportivas. Contudo conheceu os jogos de cassino e se viu em situação ainda pior.
- Começou com apostas esportivas mas o que me atordoou, me derrubou, entre aspas foi o cassino. Aí entram as plataformas que aparecem em qualquer site, esses jogos online que estão tomando conta do Brasil - contou Michel.
- Em 2022 aconteceu algo também muito ruim na minha vida, eu já tinha tomado a decisão de que não jogaria mais. Também tiveram regulamentações que limitavam apostas por atletas. Aí eu parei nas esportivas e conheci o cassino. No primeiro momento sabia que me traria muita coisa negativa, mas já tinha o gatilho do meu primeiro vício. E aí foi o que aconteceu até o dia 28 do mês passado - acrescentou.
"Minha vida hoje é reconquistar o que perdi, passar às pessoas que não sou aquele Michel do vício" - Michel, atacante do Bagé.
Atualmente Michel disputa a Série A2 do Gauchão, que equivale à segunda divisão. Em três rodadas, marcou um gol. Desde que revelou a doença nas redes sociais, disse receber vários relatos de pessoas que enfrentam a mesma situação, ao mesmo tempo que precisa lidar com críticas e insinuações de praticar atos ilegais.
- Tem gente que anda falando que me envolvi em alguma corrupção. Meu nome, CPF e minhas contas estão abertas para qualquer investigação. Nunca me envolvi em nada, graças a Deus. Tanto é que, no Rio Grande do Sul só não joguei na dupla Gre-Nal. Então tenho portas abertas nos clubes, uma ligação muito forte com presidentes e diretores.
Michel não revelou o tamanho do prejuízo financeiro e que teve com as apostas, mas reforçou que as perdas vão muito além do dinheiro. Elas incluem o abalo emocional e os excessos cometidos como o consumo de bebida e o estresse.
"Tu perde o desejo de viver a felicidade pelo simples. É como se tu tivesse vivendo uma vida de zumbi, em uma Matrix que tu só é voltado a fazer o errado." - Michel.
Na fase mais delicada da doença ele conta que foi a imagem do filho que o impediu de tirar a própria vida. Michel não chegou a procurar acompanhamento psicológico, mas diz que a família e a fé têm papel inicial essencial na fase de recuperação.
- Não sou um super-homem, ainda tenho gatilhos, momentos de tristeza quando tu pensa muito na questão familiar, na avaliação das pessoas. Porque hoje, para alguns eu sou um monstro e para outros estou conseguindo ajudar, então não consegui ter esse discernimento ainda. Mas busquei muita força mental ao rever a minha trajetória - refletiu. - As perdas financeiras a gente corre atrás e consegue reparar. A questão mental é dia após dia, a família talvez não retorne mais. Minha vida hoje é reconquistar o que eu perdi, passar às pessoas que não sou aquele Michel do vício, o cara explosivo e excessivo em algumas coisas - completou.
Além de se manter focado na recuperação, Michel começa a pensar no pós-carreira. O atacante tem intenção de seguir mais dois anos em campo e gradualmente iniciar o processo de aposentadoria, buscando novos projetos fora dos gramados, os quais ele prefere ainda não revelar.
FONTE: G1 GLOBO - ESPORTES.
REPOSTADO POR: JÚLIA BAESA.
.png)